Review: Milk, por Paulo Soares

Harvey Milk ficou na história como o primeiro homossexual assumido a exercer uma vida política, tal acontecimento serve agora para Gus Van Sant criar uma clássica ”biopic” marcando a diferença no panorama cinematográfico.

Van Sant (conhecido realizador de filmes como Gerry ou Elephant) transporta-nos até a rua de Castro (durante grande parte do filme) de forma a nos situarmos no ano de 1972, onde originalmente Milk abriu, em conjunto com o seu namorado, uma loja de fotografia. A necessidade de filmar no local onde todo se passou pela primeira vez, foi algo essencial ao realizador que tentou trazer tudo de uma forma mais tradicional. Aliás, os seguidores atentos das anteriores películas deste realizador, não serão capazes de encontrar o vanguardismo das suas antecedentes obras, mas sim um tradicionalíssimo que cria a harmonia necessária a este filme.

O filme centra-se durante o período de 1972-1978 (ano da morte de Milk pelo seu opositor político) , onde encontramos um Sean Penn na pele de outra pessoa. O actor premiado com um Oscar da Academia por Mistic River, regressa ao panorama de prémios de representação, numa personagem onde soube emergir sem deixar um único traço de si próprio. Penn não tenta representar Harvey Milk, ele transfigurou-se, literalmente, na personagem que encabeça o filme. Ele despiu-se de si próprio e traz-nos o homem que decidiu aos quarenta anos fazer algo útil na vida. Perdendo o quotidiano monótono, decidiu lutar contra aquilo que acredita estar errado, optando por se candidatar a uma cargo político para que possa agir e acima de tudo parar as pessoas que não respeitam o seu semelhante. Entenda-se que houve a inteligência de não santificar Milk, mas sim torna-lo real e plausível, no fundo: um homem com boas causas.

A importância deste filme vai muito além da aceitação da sociedade pelo amor de pessoas do mesmo sexo, o filme fala-nos dos excluídos, dos deixados de parte, que encontraram na rua principal do filme, um acolhimento que os leva a construir o seu próprio “bairro” para que encontrem um sítio onde possam ser tratados como humanos. Se existem espectadores com repulsa por um filme que aparentemente não lhes diz nada, significa que parte da sua humanidade foi apagada. Pois, é ao longo de 128 minutos que o excelente argumento de Dustin Lance Black leva-nós para um mundo onde qualquer ser humano têm direito a ser tratado como um… ser humano. Até porque se fosse necessário haver uma semelhança entre o espectador e o filme, o E.T. teria sido um fracasso nas bilheteiras. É por isso, iminente, apelar ao público (seja qual for a sua preferência sexual) a ir ver Milk e festejar com ele a alegria de ser (um) humano!

Milk é indiscutivelmente um filme que cumpre os requisitos básicos em todas as categorias, e chega a ser genial em algumas, nada é deixado ao acaso, até mesmo o cuidado tratamento das imagens de arquivo, que tendem a ser esquecidas sempre que são utilizadas. O trabalho musical ficou a cargo do conhecido Danny Elfman (The Simpsons ou Nightmare Before Christmas) que envolve-nos ainda mais nesta odisseia que representa um homem que luta pelos interesses da sociedade.

Tal como a Castro Street que cresce e torna a Califórnia numa cidade de novas oportunidade, também o é Milk (filme) ao mostrar uma nova perspectiva de como uma “biopic” pode inovar e maravilhar qualquer espectador. Até porque todos fomos ensinados em crianças a “respeitar todos como iguais”, o problema é que a memória tende a falhar, mesmo quando desejamos a felicidade.

Classificação:

Titulo: Milk
Realizador: Gus Van Sant
Actores: Sean Penn, Josh Brolin, James Franco, Emile Hirsch, Alison Pill
Argumento: Dustin Lance Black

Nota: Milk recebeu 8 nomeações para os Oscars de 2008, tendo vencido na categoria de Melhor Argumento Original (Dustin Lance Black ) e Melhor Actor (Sean Penn).

Acerca do Autor

Paulo Soares

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