Review: “O Dia em que a Terra Parou” de Scott Derrickson, por Pedro Pacheco

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Helen Benson (Jennifer Connelly) é uma cientista recrutada pelo Governo Americano para integrar uma equipa que vai analisar um objecto que se dirige para a Terra a grande velocidade.  Esse OVNI é uma nave extraterrestre pilotada por um ser chamado Klaatu (Keanu Reeves) que tem por missão salvar a Terra. Mas o sucesso dessa missão não passa pela preservação dos seus habitantes humanos. A Dra. Benson vê-se obrigada a acompanhar o alienígena afim de o convencer que a Humanidade tem potencial suficiente para merecer uma hipótese de sobrevivência…

A palavra “remake” é sinónimo de más notícias para a maior parte dos cinéfilos, que vêem assim muitos dos seus filmes preferidos serem “actualizados” sem que se possa vislumbrar muitas vezes uma mais-valia em relação ao original que justifique a sua releitura. Um bom exemplo deste facto será o odioso “Psico” de Gus Van Sant, que se limitava a copiar a obra-prima de Alfred Hitchcock plano-por-plano sem renovar nada, empobrecendo e denegrindo o filme do mestre britânico.

A película em análise é um remake do clássico de 1951, um dos filmes de ficção científica mais aplaudidos de sempre. No papel, poder-se-á considerar oportuno este projecto, não só pelo que a evolução dos efeitos visuais permite hoje criar  neste género cinematográfico, mas também pela diferença na conjuntura socio-politica que permeava o original, e que permite hoje uma abordagem diferente e porventura relevante aos temas que aborda, no que diz respeito, por exemplo, ao futuro da humanidade.

Infelizmente, o produto acabado fica aquém das eventuais intenções dos seus produtores  e equipa criativa. O argumento substitui a mentalidade da Guerra Fria de 1951, hoje em dia obsoleta, e o terror nuclear por um prisma ambientalista e de preservação do meio-ambiente natural, uma das grandes preocupações do nosso Século. E, se de facto, são introduzidas algumas ideias interessantes sobre o potencial da Humanidade ou a sua atitude perante o planeta que habita, nenhuma é satisfatóriamente desenvolvida, ficando a ideia de que, eventualmente, os cineastas temeram que a audiência pudesse aborrecer-se de uma maior complexidade da história, sem querer ao mesmo tempo abdicar desse contexto, sob pena de sobrarem apenas os efeitos especiais e a etiqueta de “blockbuster” a suportar a película. Uma atitude de querer agradar a Deus e ao Diabo, que acaba por condenar o trabalho de Scott Derrickson à medianidade: os trailers, onde se podem ver praticamente todas as cenas de acção, “vendem” uma escala épica, que nunca sobressai na visão do filme, que possui um ritmo desigual e pouco dinâmico.

Aliás, também como espectáculo puro, estamos perante um produto mediano. A realização de Derrickson é neutra,  assumindo quase uma estética televisiva, com enquadramentos muito fechados e, nalgumas instâncias, quase cláustrofóbicos. Se esta atitude funciona bem nalgumas cenas, como o interrogatório de Klaatu, noutras espartilha irremediávelmente a escala visual que um título tão bombástico como “O Dia em que a Terra Parou” sugere. Os efeitos visuais, na sua maioria, estão à altura  do que hoje dia se faz em Hollywood, mas as sequências que ilustram pecam pela sua falta de originalidade, e em nada diferem de outras já vistas em películas de temática semelhante. Já para não referir a desilusão que a utilização de Gort, o gigantesco robot extraterrestre mal concebido e ilustrado, constitui, pois é criminosamente sub-aproveitado, um pouco à semelhança do que aconteceu ao vilão Galactus, no “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado“.

O elenco constitui o ponto forte do filme, onde relevam Keanu Reeves e Jennifer Connelly ao cumprir em pleno as exigências das suas respectivas personangens. Diga-se o que se disser de Reeves, o facto é que o actor sabe escolher os papéis que melhor se adaptam aos seus talentos dramáticos (ou à falta deles) para deles extrair interpretações convincentes. Depois de uma boa performance em “Os Reis da Rua“, Reeves consegue fazer transparecer a personalidade alienígena de Klaatu, e a sua progressiva empatia para com os humanos que o acompanham, através de um uso judicioso da gestualidade e expressividade. Connelly alia o talento e a emotividade à sua beleza calma e natural, dando espessura a uma heroína que, sem esse trabalho, nada teria de relevante. Nota Menos para Jaden Smith: é díficil de dizer se é por sua causa, ou pela forma como o seu papel foi escrito, mas a sua personagem é um pouco irritante e difícil de suportar, acabando, no entanto, por alcançar a sua redempção no final. Mas Jaden ainda está longe de demonstrar o carisma e o talento que o seu pai, Will Smith, possui.

Alie-se a isto a abundante utilização de todos os clichés possíveis e imaginários  (o militar agressivo, o político cobardolas, o cientista bonzinho), e uma conclusão um pouco abrupta e vaga nos seus propósitos, que não se irá aqui obviamente revelar mas de que o espectador não deixará de se aperceber, e resta-nos um filme desigual, dividido entre arte e comércio, entre boas intenções e realismo mercantilista. Um caso óbvio de potencial desaproveitado, e que nunca mais será do que uma nota de rodapé do seu ilustre original, ao qual não consegue fazer a devida justiça.

Título Original:The Day the Earth Stood Still

Realizador: Scott Derrickson

Elenco:  Keanu Reeves, Jennifer Connelly e Jaden Smith.

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Acerca do Autor

Pedro Pacheco

4 Respostas para “Review: “O Dia em que a Terra Parou” de Scott Derrickson, por Pedro Pacheco”

  1. Um filme que, sinceramente, não tenho grande curiosidade em ver. Já agora, excelente crítica em termos de construção de discurso. ;)

  2. Grande crítica, gostei ;)

    Agora também há aquela de fazer o remake de “Os Pássaros”, certamente vai cair no mesmo.

  3. pois mais um remake a fazer lembrar pelos menos a mim o desagrado para com a Guerra dos Mundos. Estes remakes de filmes catastrofe deixam muito a desejar, talvez por o universo estar demasiado estereotipado e usado e também porque a mensagem não passa, basicamente é um filme para vender muito sem grande conteúdo. O proximo é o 2012 (que não é remake, mas deve ser igualmente mau), preparem-se para mais uma grande banhada como tem sido habitual do seu realizador.

  4. Realmente não foi nada de especial. Apenas entreteve naquele momento, mas saindo da sala, já estamos a esquecer metade do filme.

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